Os frutos selvagens da Sibéria

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O título é lindo. Misterioso. A ideia é boa: traçar um panorama de um tempo e de um lugar. Mostrar homens, mulheres, interrogações. Andar por uma terra peculiar e forte. Pela estepe e pela taiga. Escrever uma obra significante.

“Os Frutos Selvagens da Sibéria” do grande poeta russo Evgueni Ievtuchenko é um livro que cumpre o proposto ao descrever paisagens da Rússia profunda, como a aridez escaldante de intermináveis estradas no meio da estepe ao verão ou o branco da taiga no inverno, com seu vento gelado que chicoteia o rosto do jovem Serioja e o gosto doce e azedo dos frutos selvagens.

O tempo soviético subjacente é uma onipresença. Lembra bastante “Os Filhos da Rua Arbat” de Anatoli Ribakov ao mostrar personagens comuns sobrevivendo e tentando ser algo nos tempos do império do sistema… soviético.

Nos “Filhos da Arbat” as paisagens são diferentes. A famosa rua Arbat, também misteriosa e mística, fica no centro de Moscou. Os dramas humanos ali vividos e escondidos são essencialmente urbanos. Mas não menos intensos.

Nos “Frutos da Sibéria” homens e mulheres urbanos e do campo se encontram e se escondem na solidão das imensidões.

Neste livro, de 1981, ainda durante a Guerra Fria, Ievtuchenko faz um mosaico da inexorabilidade do progredir da vida naqueles tempos. Uma vida que escapa à vontade dos homens, embora construída por homens, pelas memórias apagadas de um velho, pelas esperanças otimistas de um jovem do Konsomol, pela resignação de uma mulher.

Um homem é marcado por seu tempo e por sua terra mesmo quando se deseja universal. Ievtuchenko busca ser universal neste livro, porém, de fato, “Os Frutos” é um livro profundamente russo; profundamente soviético. É a reflexão de um homem soviético sobre si mesmo e sobre seu povo. Seus personagens são russo-soviéticos.

Os frutos são filhos dos revolucionários de 1917, são soldados da Segunda Guerra, a patriótica, de 1941; festejaram a vitória de 45; reconstruíam um país destruído ao mesmo tempo que festejavam o “homem novo” do socialismo. Homem que já nas décadas de 1950 e 1960 chegava ao espaço anunciando um futuro radiante para a pátria soviética e para toda a humanidade.

Mas os “frutos da Sibéria” eram profundamente humanos; humanos soviéticos, frutos, herdeiros e portadores de uma filosofia popular profunda que impregna a Rússia desde sempre, que nas suas entranhas virou “russismo”, algo que só para os russos tem um sentido traduzível.

Essa geração pós-guerra tinha muitas dúvidas e algumas certezas. A dor da morte, o heroísmo, a destruição e a reconstrução, cadenciam a alma russa do século vinte.

O nascimento do pensamento coletivista decretou o fim do indivíduo. Mas o indivíduo teima em sobreviver, meio silenciosamente, e observa as contradições de si mesmo e do seu tempo.

A sensibilidade do poeta Ievtuchenko capta e registra todos esses silêncios, todos as filosofias, inusitadas filosofias: “espantado de manter um tal discurso, no fundo da taiga siberiana, num barco que cheirava a pez, a lona de barraca úmida e a peixe seco…”

Talvez a Sibéria seja, no fundo, com seus frutos, a grande reserva da filosofia popular russa, o “russismo” que já deu muito a toda a humanidade.

Julio Pujol

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